DATA: 22/03
A Caolha – Júlia Lopes de
Almeida
Júlia Lopes de Almeida
A caolha era uma mulher magra, alta,
macilenta, peito fundo, busto arqueado, braços compridos, delgados, largos nos
cotovelos, grossos nos pulsos; mãos grandes, ossudas, estragadas pelo
reumatismo e pelo trabalho; unhas grossas, chatas e cinzentas, cabelo crespo,
de uma cor indecisa entre o branco sujo e o louro grisalho, desse cabelo cujo
contato parece dever ser áspero e espinhento; boca descaída, numa expressão de
desprezo, pescoço longo, engelhado, como o pescoço dos urubus; dentes falhos e
cariados.
O seu aspecto infundia terror às
crianças e repulsão aos adultos; não tanto pela sua altura e extraordinária
magreza, mas porque a desgraçada tinha um defeito horrível: haviam lhe extraído
o olho esquerdo; a pálpebra descera mirrada, deixando, contudo, junto ao
lacrimal, uma fístula continuamente porejante.
Era essa pinta amarela sobre o fundo
denegrido da olheira, era essa destilação incessante de pus que a tornava
repulsiva aos olhos de toda gente.
Morava numa casa pequena, paga pelo
filho único, operário numa fábrica de alfaiate; ela lavava a roupa para os
hospitais e dava conta de todo o serviço da casa inclusive cozinha. O filho,
enquanto era pequeno, comia os pobres jantares feitos por ela, às vezes até no
mesmo prato; à proporção que ia crescendo, ia-se a pouco e pouco manifestando
na fisionomia a repugnância por essa comida; até que um dia, tendo já um
ordenadozinho, declarou à mãe que, por conveniência do negócio, passava a comer
fora…
Ela fingiu não perceber a verdade, e
resignou-se.
Daquele filho vinha-lhe todo o bem e
todo o mal.
Que lhe importava o desprezo dos
outros, se o seu filho adorado lhe pagasse com um beijo todas as amarguras da
existência?
Um beijo dele era melhor que um dia
de sol, era a suprema carícia para o triste coração de mãe! Mas… os beijos
foram escasseando também, com o crescimento do Antonico! Em criança ele
apertava-a nos braços e enchia-lhe a cara de beijos; depois, passou a beijá-la
só na face direita, aquela onde não havia vestígios de doença; agora,
limitava-se a beijar-lhe a mão!
Ela compreendia tudo e calava-se.
O filho não sofria menos.
Quando em criança entrou para a
escola pública da freguesia, começaram logo os colegas, que o viam ir e vir com
a mãe, a chamá-lo – o filho da caolha.
Aquilo exasperava-o; respondia
sempre:
– Eu tenho nome!
Os outros riam e chacoteavam-no; ele
se queixava aos mestres, os mestres ralhavam com os discípulos, chegavam mesmo
a castigá-los – mas a alcunha pegou. Já não era só na escola que o chamavam
assim.
Na rua, muitas vezes, ele ouvia de
uma ou outra janela dizerem: o filho da caolha! Lá vai o filho da caolha! Lá
vem o filho da caolha!
Eram as irmãs dos colegas, meninas
novas, inocentes e que, industriadas pelos irmãos, feriam o coração do pobre
Antonico cada vez que o viam passar!
As quitandeiras, onde iam comprar as
goiabas ou as bananas para o lanche, aprenderam depressa a denominá-lo como os
outros, e, muitas vezes, afastando os pequenos que se aglomeravam ao redor
delas, diziam, estendendo uma mancheia de araçás, com piedade e simpatia:
– Taí, isso é para o filho da caolha!
O Antonico preferia não receber o
presente a ouvi-lo acompanhar de tais palavras; tanto mais que os outros, com
inveja, rompiam a gritar, cantando em coro, num estribilho já combinado:
– Filho da caolha, filho da caolha!
O Antonico pediu à mãe que não o
fosse buscar à escola; e muito vermelho, contou-lhe a causa; sempre que o viam
aparecer à porta do colégio os companheiros murmuravam injúrias, piscavam os
olhos para o Antonico e faziam caretas de náuseas.
A caolha suspirou e nunca mais foi
buscar o filho.
Aos onze anos o Antonico pediu para
sair da escola: levava a brigar com os condiscípulos, que o intrigavam e
malqueriam. Pediu para entrar para uma oficina de marceneiro. Mas na oficina de
marceneiro aprenderam depressa a chamá-lo – o filho da caolha, a humilhá-lo, como
no colégio.
Além de tudo, o serviço era pesado e
ele começou a ter vertigens e desmaios. Arranjou então um lugar de caixeiro de
venda: os seus colegas agruparam-se à porta, insultando-o, e o vendeiro achou
prudente mandar o caixeiro embora, tanto que a rapaziada ia-lhe dando cabo do
feijão e do arroz expostos à porta nos sacos abertos! Era uma contínua
saraivada de cereais sobre o pobre Antonico!
Depois disso passou um tempo em casa,
ocioso, magro, amarelo, deitado pelos cantos, dormindo às moscas, sempre
zangado e sempre bocejante! Evitava sair de dia e nunca, mas nunca, acompanhava
a mãe; esta poupava-o: tinha medo que o rapaz, num dos desmaios, lhe morresse
nos braços, e por isso nem sequer o repreendia! Aos dezesseis anos, vendo-o
mais forte, pediu e obteve-lhe, a caolha, um lugar numa oficina de alfaiate. A
infeliz mulher contou ao mestre toda a história do filho e suplicou-lhe que não
deixasse os aprendizes humilhá-lo; que os fizesse terem caridade!
Antonico encontrou na oficina uma
certa reserva e silêncio da parte dos companheiros; quando o mestre dizia: sr.
Antonico, ele percebia um sorriso mal oculto nos lábios dos oficiais; mas a
pouco e pouco essa suspeita, ou esse sorriso, se foi desvanecendo, até que
principiou a sentir-se bem ali.
Decorreram alguns anos e chegou a vez
de Antonico se apaixonar. Até aí, numa ou outra pretensão de namoro que ele
tivera, encontrara sempre uma resistência que o desanimava, e que o fazia
retroceder sem grandes mágoas. Agora, porém, a coisa era diversa: ele amava! Amava
como um louco a linda moreninha da esquina fronteira, uma rapariguinha
adorável, de olhos negros como veludos e boca fresca como um botão de rosa. O
Antonico voltou a ser assíduo em casa e expandia-se mais carinhosamente com a
mãe; um dia, em que viu os olhos da morena fixarem os seus, entrou como um
louco no quarto da caolha e beijou-a mesmo na face esquerda, num
transbordamento de esquecida ternura!
Aquele beijo foi para a infeliz uma
inundação de júbilo! Tornara a encontrar o seu querido filho! Pôs-se a cantar
toda a tarde, e nessa noite, ao adormecer, dizia consigo:
– Sou muito feliz… o meu filho é um
anjo!
Entretanto, o Antonico escrevia, num
papel fino, a sua declaração de amor à vizinha. No dia seguinte mandou-lhe cedo
a carta. A resposta fez-se esperar. Durante muitos dias Antonico perdia-se em
amarguradas conjecturas.
Ao princípio pensava: – É o pudor.
Depois começou a desconfiar de outra
causa; por fim recebeu uma carta em que a bela moreninha confessava consentir
em ser sua mulher, se ele se separasse completamente da mãe! Vinham explicações
confusas, mal alinhavadas: lembrava a mudança de bairro; ele ali era muito
conhecido por filho da caolha, e bem compreendia que ela não se poderia
sujeitar a ser alcunhada em breve de – nora da caolha, ou coisa semelhante!
O Antonico chorou! Não podia crer que
a sua casta e gentil moreninha tivesse pensamentos tão práticos!
Depois o seu rancor se voltou para a
mãe.
Ela era a causadora de toda a sua
desgraça! Aquela mulher perturbara a sua infância, quebrara-lhe todas as
carreiras, e agora o seu mais brilhante sonho de futuro sumia-se diante dela!
Lamentava-se por ter nascido de mulher tão feia, e resolveu procurar meio de
separar-se dela; iria considerar-se humilhado continuando sob o mesmo teto;
havia de protegê-la de longe, vindo de vez em quando vê-la à noite,
furtivamente…
Salvava assim a responsabilidade do
protetor e, ao mesmo tempo, consagraria à sua amada a felicidade que lhe devia
em troca do seu consentimento e amor…
Passou um dia terrível; à noite,
voltando para casa levava o seu projeto e a decisão de o expor à mãe.
A
velha, agachada à porta do quintal, lavava umas panelas com um trapo
engordurado. O Antonico pensou: “Ao dizer a verdade eu havia de sujeitar minha
mulher a viver em companhia de… uma tal criatura?” Estas últimas palavras foram
arrastadas pelo seu espírito com verdadeira dor. A caolha levantou para ele o
rosto, e o Antonico, vendo-lhe o pus na face, disse:
– Limpe a cara, mãe…
– Limpe a cara, mãe…
Ela sumiu a cabeça no avental; ele
continuou:
– Afinal, nunca me explicou bem a que
é devido esse defeito!
– Foi uma doença, – respondeu
sufocadamente a mãe – é melhor não lembrar isso!
– E é sempre a sua resposta: é melhor
não lembrar isso! Por quê?
– Porque não vale a pena; nada se
remedeia…
– Bem! Agora escute: trago-lhe uma
novidade. O patrão exige que eu vá dormir na vizinhança da loja… já aluguei um
quarto; a senhora fica aqui e eu virei todos os dias saber da sua saúde ou se
tem necessidade de alguma coisa… É por força maior; não temos remédio senão
sujeitar-nos!…
Ele, magrinho, curvado pelo hábito de
costurar sobre os joelhos, delgado e amarelo como todos os rapazes criados à
sombra das oficinas, onde o trabalho começa cedo e o serão acaba tarde, tinha
lançado naquelas palavras toda a sua energia, e espreitava agora a mãe com um
olhar desconfiado e medroso.
A caolha se levantou e, fixando o
filho com uma expressão terrível, respondeu com doloroso desdém:
– Embusteiro! O que você tem é
vergonha de ser meu filho! Saia! Que eu também já sinto vergonha de ser mãe de
semelhante ingrato!
O rapaz saiu cabisbaixo, humilde,
surpreso da atitude que assumira a mãe, até então sempre paciente e cordata; ia
com medo, maquinalmente, obedecendo à ordem que tão feroz e imperativamente lhe
dera a caolha.
Ela
o acompanhou, fechou com estrondo a porta, e vendo-se só, encostou-se
cabaleante à parede do corredor e desabafou em soluços.
O Antonico passou uma tarde e uma noite de angústia.
O Antonico passou uma tarde e uma noite de angústia.
Na manhã seguinte o seu primeiro
desejo foi voltar à casa; mas não teve coragem; via o rosto colérico da mãe,
faces contraídas, lábios adelgaçados pelo ódio, narinas dilatadas, o olho
direito saliente, a penetrar-lhe até o fundo do coração, o olho esquerdo
arrepanhado, murcho – murcho e sujo de pus; via a sua atitude altiva, o seu
dedo ossudo, de falanges salientes, apontando-lhe com energia a porta da rua;
sentia-lhe ainda o som cavernoso da voz, e o grande fôlego que ela tomara para
dizer as verdadeiras e amargas palavras que lhe atirara no rosto; via toda a
cena da véspera e não se animava a arrostar com o perigo de outra semelhante.
Providencialmente, lembrou-se da
madrinha, única amiga da caolha, mas que, entretanto, raramente a procurava.
Foi pedir-lhe que interviesse, e
contou-lhe sinceramente tudo o que houvera.
A madrinha escutou-o comovida; depois
disse:
– Eu previa isso mesmo, quando
aconselhava tua mãe a que te dissesse a verdade inteira; ela não quis, aí está!
– Que verdade, madrinha?
Encontraram a caolha a tirar umas
nódoas do fraque do filho – queria mandar-lhe a roupa limpinha. A infeliz se
arrependera das palavras que dissera e tinha passado a noite à janela,
esperando que o Antonico voltasse ou passasse apenas… Via o porvir negro e
vazio e já se queixava de si! Quando a amiga e o filho entraram, ela ficou
imóvel: a surpresa e a alegria amarraram-lhe toda a ação.
A madrinha do Antonico começou logo:
– O teu rapaz foi suplicar-me que te
viesse pedir perdão pelo que houve aqui ontem e eu aproveito a ocasião para, à
tua vista, contar-lhe o que já deverias ter-lhe dito!
– Cala-te! – murmurou com voz apagada
a caolha.
– Não me calo! Essa pieguice é que te
tem prejudicado! Olha, rapaz! Quem cegou a tua mãe foste tu!
O afilhado tornou-se lívido; e ela
concluiu:
– Ah, não tiveste culpa! Eras muito
pequeno quando, um dia, ao almoço, levantaste na mãozinha um garfo; ela estava
distraída, e antes que eu pudesse evitar a catástrofe, tu o enterraste pelo
olho esquerdo! Ainda tenho no ouvido o grito de dor que ela deu!
O Antonico caiu pesadamente de
bruços, com um desmaio; a mãe acercou-se rapidamente dele, murmurando trêmula:
– Pobre filho! Vês? Era por isto que eu não queria dizer nada!
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