A CAUSA SECRETA
Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de
balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho
de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do
dia, que estivera excelente, - de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de
uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui
presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem
rebuço.
Tinham falado também de outra coisa, além daquelas três, coisa tão feia
e grave, que não lhes deixou muito gosto para tratar do dia, do bairro e da
casa de saúde. Toda a conversação a este respeito foi constrangida. Agora
mesmo, os dedos de Maria Luísa parecem ainda trêmulos, ao passo que há no rosto
de Garcia uma expressão de severidade, que lhe não é habitual. Em verdade, o
que se passou foi de tal natureza, que para fazê-lo entender é preciso remontar
à origem da situação.
Garcia tinha-se formado em medicina, no ano anterior, 1861. No de 1860,
estando ainda na Escola, encontrou-se com Fortunato, pela primeira vez, à porta
da Santa Casa; entrava, quando o outro saía. Fez-lhe impressão a figura; mas,
ainda assim, tê-la-ia esquecido, se não fosse o segundo encontro, poucos dias
depois. Morava na rua de D. Manoel. Uma de suas raras distrações era ir ao
teatro de S. Januário, que ficava perto, entre essa rua e a praia; ia uma ou
duas vezes por mês, e nunca achava acima de quarenta pessoas. Só os mais
intrépidos ousavam estender os passos até aquele recanto da cidade. Uma noite,
estando nas cadeiras, apareceu ali Fortunato, e sentou-se ao pé dele.
A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e
remorsos; mas Fortunato ouvia-a com singular interesse. Nos lances dolorosos, a
atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a outro, a tal
ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências pessoais do
vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não esperou por ela e
saiu; Garcia saiu atrás dele. Fortunato foi pelo beco do Cotovelo, rua de S.
José, até o largo da Carioca. Ia devagar, cabisbaixo, parando às vezes, para
dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão ficava ganindo e ele ia
andando. No largo da Carioca entrou num tílburi, e seguiu para os lados da
praça da Constituição. Garcia voltou para casa sem saber mais nada.
Decorreram algumas semanas. Uma noite, eram nove horas, estava em casa,
quando ouviu rumor de vozes na escada; desceu logo do sótão, onde morava, ao
primeiro andar, onde vivia um empregado do arsenal de guerra. Era este que
alguns homens conduziam, escada acima, ensanguentado. O preto que o servia
acudiu a abrir a porta; o homem gemia, as vozes eram confusas, a luz pouca.
Deposto o ferido na cama, Garcia disse que era preciso chamar um médico.
- Já aí vem um, acudiu alguém.
Garcia olhou: era o próprio homem da Santa Casa e do teatro. Imaginou
que seria parente ou amigo do ferido; mas rejeitou a suposição, desde que lhe
ouvira perguntar se este tinha família ou pessoa próxima. Disse-lhe o preto que
não, e ele assumiu a direção do serviço, pediu às pessoas estranhas que se
retirassem, pagou aos carregadores, e deu as primeiras ordens. Sabendo que o
Garcia era vizinho e estudante de medicina pediu-lhe que ficasse para ajudar o
médico. Em seguida contou o que se passara.
- Foi uma malta de capoeiras. Eu vinha do quartel de Moura, onde fui
visitar um primo, quando ouvi um barulho muito grande, e logo depois um
ajuntamento. Parece que eles feriram também a um sujeito que passava, e que
entrou por um daqueles becos; mas eu só vi a este senhor, que atravessava a rua
no momento em que um dos capoeiras, roçando por ele, meteu-lhe o punhal. Não
caiu logo; disse onde morava e, como era a dois passos, achei melhor trazê-lo.
- Conhecia-o antes? perguntou Garcia.
- Não, nunca o vi. Quem é?
- É um bom homem, empregado no arsenal de guerra. Chama-se Gouvêa.
- Não sei quem é.
Médico e subdelegado vieram daí a pouco; fez-se o curativo, e tomaram-se
as informações. O desconhecido declarou chamar-se Fortunato Gomes da Silveira,
ser capitalista, solteiro, morador em Catumbi. A ferida foi reconhecida grave.
Durante o curativo ajudado pelo estudante, Fortunato serviu de criado,
segurando a bacia, a vela, os panos, sem perturbar nada, olhando friamente para
o ferido, que gemia muito. No fim, entendeu-se particularmente com o médico,
acompanhou-o até o patamar da escada, e reiterou ao subdelegado a declaração de
estar pronto a auxiliar as pesquisas da polícia. Os dois saíram, ele e o
estudante ficaram no quarto.
Garcia estava atônito. Olhou para ele, viu-o sentar-se tranqüilamente,
estirar as pernas, meter as mãos nas algibeiras das calças, e fitar os olhos no
ferido. Os olhos eram claros, cor de chumbo, moviam-se devagar, e tinham a
expressão dura, seca e fria. Cara magra e pálida; uma tira estreita de barba,
por baixo do queixo, e de uma têmpora a outra, curta, ruiva e rara. Teria
quarenta anos. De quando em quando, voltava-se para o estudante, e perguntava
alguma coisa acerca do ferido; mas tornava logo a olhar para ele, enquanto o
rapaz lhe dava a resposta. A sensação que o estudante recebia era de repulsa ao
mesmo tempo que de curiosidade; não podia negar que estava assistindo a um ato
de rara dedicação, e se era desinteressado como parecia, não havia mais que
aceitar o coração humano como um poço de mistérios.
Fortunato saiu pouco antes de uma hora; voltou nos dias seguintes, mas a
cura fez-se depressa, e, antes de concluída, desapareceu sem dizer ao
obsequiado onde morava. Foi o estudante que lhe deu as indicações do nome, rua
e número.
- Vou agradecer-lhe a esmola que me fez, logo que possa sair, disse o
convalescente.
Correu a Catumbi daí a seis dias. Fortunato recebeu-o constrangido,
ouviu impaciente as palavras de agradecimento, deu-lhe uma resposta enfastiada
e acabou batendo com as borlas do chambre no joelho. Gouvêa, defronte dele,
sentado e calado, alisava o chapéu com os dedos, levantando os olhos de quando
em quando, sem achar mais nada que dizer. No fim de dez minutos, pediu licença para
sair, e saiu.
- Cuidado com os capoeiras! disse-lhe o dono da casa, rindo-se.
O pobre-diabo saiu de lá mortificado, humilhado, mastigando a custo o
desdém, forcejando por esquecê-lo, explicá-lo ou perdoá-lo, para que no coração
só ficasse a memória do benefício; mas o esforço era vão. O ressentimento,
hóspede novo e exclusivo, entrou e pôs fora o benefício, de tal modo que o
desgraçado não teve mais que trepar à cabeça e refugiar-se ali como uma simples
idéia. Foi assim que o próprio benfeitor insinuou a este homem o sentimento da
ingratidão.
Tudo isso assombrou o Garcia. Este moço possuía, em gérmen, a faculdade
de decifrar os homens, de decompor os caracteres, tinha o amor da análise, e
sentia o regalo, que dizia ser supremo, de penetrar muitas camadas morais, até
apalpar o segredo de um organismo. Picado de curiosidade, lembrou-se de ir ter
com o homem de Catumbi, mas advertiu que nem recebera dele o oferecimento
formal da casa. Quando menos, era-lhe preciso um pretexto, e não achou nenhum.
Tempos depois, estando já formado e morando na rua de Matacavalos, perto
da do Conde, encontrou Fortunato em uma gôndola, encontrou-o ainda outras
vezes, e a freqüência trouxe a familiaridade. Um dia Fortunato convidou-o a ir
visitá-lo ali perto, em Catumbi.
- Sabe que estou casado?
- Não sabia.
- Casei-me há quatro meses, podia dizer quatro dias. Vá jantar conosco
domingo.
- Domingo?
- Não esteja forjando desculpas; não admito desculpas. Vá domingo.
Garcia foi lá domingo. Fortunato deu-lhe um bom jantar, bons charutos e
boa palestra, em companhia da senhora, que era interessante. A figura dele não
mudara; os olhos eram as mesmas chapas de estanho, duras e frias; as outras
feições não eram mais atraentes que dantes. Os obséquios, porém, se não
resgatavam a natureza, davam alguma compensação, e não era pouco. Maria Luísa é
que possuía ambos os feitiços, pessoa e modos. Era esbelta, airosa, olhos
meigos e submissos; tinha vinte e cinco anos e parecia não passar de dezenove.
Garcia, à segunda vez que lá foi, percebeu que entre eles havia alguma
dissonância de caracteres, pouca ou nenhuma afinidade moral, e da parte da
mulher para com o marido uns modos que transcendiam o respeito e confinavam na
resignação e no temor. Um dia, estando os três juntos, perguntou Garcia a Maria
Luísa se tivera notícia das circunstâncias em que ele conhecera o marido.
- Não, respondeu a moça.
- Vai ouvir uma ação bonita.
- Não vale a pena, interrompeu Fortunato.
- A senhora vai ver se vale a pena, insistiu o médico.
Contou o caso da rua de D. Manoel. A moça ouviu-o espantada.
Insensivelmente estendeu a mão e apertou o pulso ao marido, risonha e
agradecida, como se acabasse de descobrir-lhe o coração. Fortunato sacudia os
ombros, mas não ouvia com indiferença. No fim contou ele próprio a visita que o
ferido lhe fez, com todos os pormenores da figura, dos gestos, das palavras
atadas, dos silêncios, em suma, um estúrdio. E ria muito ao contá-la. Não era o
riso da dobrez. A dobrez é evasiva e oblíqua; o riso dele era jovial e franco.
" Singular homem!" pensou Garcia.
Maria Luísa ficou desconsolada com a zombaria do marido; mas o médico
restituiu-lhe a satisfação anterior, voltando a referir a dedicação deste e as
suas raras qualidades de enfermeiro; tão bom enfermeiro, concluiu ele, que, se
algum dia fundar uma casa de saúde, irei convidá-lo.
- Valeu? perguntou Fortunato.
- Valeu o quê?
- Vamos fundar uma casa de saúde?
- Não valeu nada; estou brincando.
- Podia-se fazer alguma coisa; e para o senhor, que começa a clínica, acho
que seria bem bom. Tenho justamente uma casa que vai vagar, e serve.
Garcia recusou nesse e no dia seguinte; mas a idéia tinha-se metido na
cabeça ao outro, e não foi possível recuar mais. Na verdade, era uma boa
estréia para ele, e podia vir a ser um bom negócio para ambos. Aceitou
finalmente, daí a dias, e foi uma desilusão para Maria Luísa. Criatura nervosa
e frágil, padecia só com a idéia de que o marido tivesse de viver em contato
com enfermidades humanas, mas não ousou opor-se-lhe, e curvou a cabeça. O plano
fez-se e cumpriu-se depressa. Verdade é que Fortunato não curou de mais nada,
nem então, nem depois. Aberta a casa, foi ele o próprio administrador e chefe
de enfermeiros, examinava tudo, ordenava tudo, compras e caldos, drogas e
contas.
Garcia pôde então observar que a dedicação ao ferido da rua D. Manoel
não era um caso fortuito, mas assentava na própria natureza deste homem. Via-o
servir como nenhum dos fâmulos. Não recuava diante de nada, não conhecia
moléstia aflitiva ou repelente, e estava sempre pronto para tudo, a qualquer
hora do dia ou da noite. Toda a gente pasmava e aplaudia. Fortunato estudava,
acompanhava as operações, e nenhum outro curava os cáusticos.
- Tenho muita fé nos cáusticos, dizia ele.
A comunhão dos interesses apertou os laços da intimidade. Garcia
tornou-se familiar na casa; ali jantava quase todos os dias, ali observava a
pessoa e a vida de Maria Luísa, cuja solidão moral era evidente. E a solidão
como que lhe duplicava o encanto. Garcia começou a sentir que alguma coisa o
agitava, quando ela aparecia, quando falava, quando trabalhava, calada, ao
canto da janela, ou tocava ao piano umas músicas tristes. Manso e manso,
entrou-lhe o amor no coração. Quando deu por ele, quis expeli-lo para que entre
ele e Fortunato não houvesse outro laço que o da amizade; mas não pôde. Pôde
apenas trancá-lo; Maria Luísa compreendeu ambas as coisas, a afeição e o
silêncio, mas não se deu por achada.
No começo de outubro deu-se um incidente que desvendou ainda mais aos
olhos do médico a situação da moça. Fortunato metera-se a estudar anatomia e
fisiologia, e ocupava-se nas horas vagas em rasgar e envenenar gatos e cães.
Como os guinchos dos animais atordoavam os doentes, mudou o laboratório para
casa, e a mulher, compleição nervosa, teve de os sofrer. Um dia, porém, não
podendo mais, foi ter com o médico e pediu-lhe que, como coisa sua, alcançasse
do marido a cessação de tais experiências.
- Mas a senhora mesma...
Maria Luísa acudiu, sorrindo:
- Ele naturalmente achará que sou criança. O que eu queria é que o
senhor, como médico, lhe dissesse que isso me faz mal; e creia que faz...
Garcia alcançou prontamente que o outro acabasse com tais estudos. Se os
foi fazer em outra parte, ninguém o soube, mas pode ser que sim. Maria Luísa
agradeceu ao médico, tanto por ela como pelos animais, que não podia ver
padecer. Tossia de quando em quando; Garcia perguntou-lhe se tinha alguma
coisa, ela respondeu que nada.
- Deixe ver o pulso.
- Não tenho nada.
Não deu o pulso, e retirou-se. Garcia ficou apreensivo. Cuidava, ao
contrário, que ela podia ter alguma coisa, que era preciso observá-la e avisar
o marido em tempo.
Dois dias depois, - exatamente o dia em que os vemos agora, - Garcia foi
lá jantar. Na sala disseram-lhe que Fortunato estava no gabinete, e ele caminhou
para ali; ia chegando à porta, no momento em que Maria Luísa saía aflita.
- Que é? perguntou-lhe.
- O rato! O rato! exclamou a moça sufocada e afastando-se.
Garcia lembrou-se que na véspera ouvira ao Fortunato queixar-se de um
rato, que lhe levara um papel importante; mas estava longe de esperar o que
viu. Viu Fortunato sentado à mesa, que havia no centro do gabinete, e sobre a
qual pusera um prato com espírito de vinho. O líquido flamejava. Entre o
polegar e o índice da mão esquerda segurava um barbante, de cuja ponta pendia o
rato atado pela cauda. Na direita tinha uma tesoura. No momento em que o Garcia
entrou, Fortunato cortava ao rato uma das patas; em seguida desceu o infeliz
até a chama, rápido, para não matá-lo, e dispôs-se a fazer o mesmo à terceira,
pois já lhe havia cortado a primeira. Garcia estacou horrorizado.
- Mate-o logo! disse-lhe.
- Já vai.
E com um sorriso único, reflexo de alma satisfeita, alguma coisa que
traduzia a delícia íntima das sensações supremas, Fortunato cortou a terceira
pata ao rato, e fez pela terceira vez o mesmo movimento até a chama. O
miserável estorcia-se, guinchando, ensangüentado, chamuscado, e não acabava de
morrer. Garcia desviou os olhos, depois voltou-os novamente, e estendeu a mão
para impedir que o suplício continuasse, mas não chegou a fazê-lo, porque o
diabo do homem impunha medo, com toda aquela serenidade radiosa da
fisionomia. Faltava cortar a última pata; Fortunato cortou-a muito devagar,
acompanhando a tesoura com os olhos; a pata caiu, e ele ficou olhando para o
rato meio cadáver. Ao descê-lo pela quarta vez, até a chama, deu ainda mais
rapidez ao gesto, para salvar, se pudesse, alguns farrapos de vida.
Garcia, defronte, conseguia dominar a repugnância do espetáculo para
fixar a cara do homem. Nem raiva, nem ódio; tão-somente um vasto prazer, quieto
e profundo, como daria a outro a audição de uma bela sonata ou a vista de uma
estátua divina, alguma coisa parecida com a pura sensação estética.
Pareceu-lhe, e era verdade, que Fortunato havia-o inteiramente esquecido. Isto
posto, não estaria fingindo, e devia ser aquilo mesmo. A chama ia morrendo, o
rato podia ser que tivesse ainda um resíduo de vida, sombra de sombra;
Fortunato aproveitou-o para cortar-lhe o focinho e pela última vez chegar a
carne ao fogo. Afinal deixou cair o cadáver no prato, e arredou de si toda essa
mistura de chamusco e sangue.
Ao levantar-se deu com o médico e teve um sobressalto. Então, mostrou-se
enraivecido contra o animal, que lhe comera o papel; mas a cólera evidentemente
era fingida.
"Castiga sem raiva", pensou o médico, "pela necessidade
de achar uma sensação de prazer, que só a dor alheia lhe pode dar: é o segredo
deste homem".
Fortunato encareceu a importância do papel, a perda que lhe trazia,
perda de tempo, é certo, mas o tempo agora era-lhe preciosíssimo. Garcia ouvia
só, sem dizer nada, nem lhe dar crédito. Relembrava os atos dele, graves e
leves, achava a mesma explicação para todos. Era a mesma troca das teclas da
sensibilidade, um diletantismo sui generis, uma redução de Calígula.
Quando Maria Luísa voltou ao gabinete, daí a pouco, o marido foi ter com
ela, rindo, pegou-lhe nas mãos e falou-lhe mansamente:
- Fracalhona!
E voltando-se para o médico:
- Há de crer que quase desmaiou?
Maria Luísa defendeu-se a medo, disse que era nervosa e mulher; depois
foi sentar-se à janela com as suas lãs e agulhas, e os dedos ainda trêmulos,
tal qual a vimos no começo desta história. Hão de lembrar-se que, depois de
terem falado de outras coisas, ficaram calados os três, o marido sentado e
olhando para o teto, o médico estalando as unhas. Pouco depois foram jantar;
mas o jantar não foi alegre. Maria Luísa cismava e tossia; o médico indagava de
si mesmo se ela não estaria exposta a algum excesso na companhia de tal homem.
Era apenas possível; mas o amor trocou-lhe a possibilidade em certeza; tremeu
por ela e cuidou de os vigiar.
Ela tossia, tossia, e não se passou muito tempo que a moléstia não
tirasse a máscara. Era a tísica, velha dama insaciável, que chupa a vida toda,
até deixar um bagaço de ossos. Fortunato recebeu a notícia como um golpe; amava
deveras a mulher, a seu modo, estava acostumado com ela, custava-lhe perdê-la.
Não poupou esforços, médicos, remédios, ares, todos os recursos e todos os
paliativos. Mas foi tudo vão. A doença era mortal.
Nos últimos dias, em presença dos tormentos supremos da moça, a índole
do marido subjugou qualquer outra afeição. Não a deixou mais; fitou o olho baço
e frio naquela decomposição lenta e dolorosa da vida, bebeu uma a uma as
aflições da bela criatura, agora magra e transparente, devorada de febre e
minada de morte. Egoísmo aspérrimo, faminto de sensações, não lhe perdoou um só
minuto de agonia, nem lhos pagou com uma só lágrima, pública ou íntima. Só
quando ela expirou, é que ele ficou aturdido. Voltando a si, viu que estava
outra vez só.
De noite, indo repousar uma parenta de Maria Luísa, que a ajudara a
morrer, ficaram na sala Fortunato e Garcia, velando o cadáver, ambos
pensativos; mas o próprio marido estava fatigado, o médico disse-lhe que
repousasse um pouco.
- Vá descansar, passe pelo sono uma hora ou duas: eu irei depois.
Fortunato saiu, foi deitar-se no sofá da saleta contígua, e adormeceu
logo. Vinte minutos depois acordou, quis dormir outra vez, cochilou alguns
minutos, até que se levantou e voltou à sala. Caminhava nas pontas dos pés para
não acordar a parenta, que dormia perto. Chegando à porta, estacou assombrado.
Garcia tinha-se chegado ao cadáver, levantara o lenço e contemplara por
alguns instantes as feições defuntas. Depois, como se a morte espiritualizasse
tudo, inclinou-se e beijou-a na testa. Foi nesse momento que Fortunato chegou à
porta. Estacou assombrado; não podia ser o beijo da amizade, podia ser o
epílogo de um livro adúltero. Não tinha ciúmes, note-se; a natureza compô-lo de
maneira que lhe não deu ciúmes nem inveja, mas dera-lhe vaidade, que não é
menos cativa ao ressentimento.
Olhou assombrado, mordendo os beiços.
Entretanto, Garcia inclinou-se ainda para beijar outra vez o cadáver;
mas então não pôde mais. O beijo rebentou em soluços, e os olhos não puderam
conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e
irremediável desespero. Fortunato, à porta, onde ficara, saboreou tranqüilo
essa explosão de dor moral que foi longa, muito longa, deliciosamente longa.
Fonte: Várias Histórias - Machado de
Assis - W. M. Jackson Inc Editores - 1946.
A
Cartomante
Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria,
ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela
adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era.
Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma
pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas,
combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse,
mas que não era verdade...
— Errou!
Interrompeu Camilo, rindo.
— Não
diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você
sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo
pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito,
que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso, quando tivesse algum
receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que
era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber!
tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é
a casa?
— Aqui
perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu
não sou maluca.
Camilo
riu outra vez:
— Tu crês
deveras nessas coisas? perguntou-lhe.
Foi então
que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito
cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não acreditava, paciência;
mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela
agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que
ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele,
em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de
crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em
que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião,
ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma
dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada.
Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar
tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a
incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi
andando.
Separaram-se
contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não
só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes,
e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A
casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana
de Rita. Esta desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde
residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando de passagem para a casa da
cartomante.
Vilela,
Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens.
Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a
carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do
pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada,
até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou
Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a
magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os
lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor?
exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo;
falava sempre do senhor.
Camilo e
Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de
si para si que a mulher do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente,
era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era
um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e
Camilo vente e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais
velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática.
Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza
põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se
os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e
nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela
cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do
coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí
chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as
horas ao lado dela; era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas
principalmente era mulher e bonita. Odor di
femina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em
si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo
ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe
ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os
olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam
antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia,
fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita
apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde
ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras
vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha
caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada,
fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas
que o cercam.
Camilo
quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se
acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe
o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos,
desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante.
Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram
ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e
pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam
ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as
mesmas.
Um dia,
porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e
dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as
suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as
ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz.
Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram
inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma
intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia
do ato.
Foi por
esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para
consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo. Vimos que a
cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito
o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três
cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude,
mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras
palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e
avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por
isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a
catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem,
disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que
lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma
apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando
pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso
deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o
marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio
particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a
suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas
semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e
separaram-se com lágrimas.
No dia
seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela:
"Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de
meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural
chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a
letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas
essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já,
já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no
papel.
Imaginariamente,
viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela
indignado, pegando na pena e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e
esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo,
e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho,
lembrou-se de ir a casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse
tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem
descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia
anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela
conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente,
apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia
andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam
decoradas, diante dos olhos, fixas; ou então, — o que era ainda peior, —
eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já à
nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas, assim, pela voz do outro,
tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê? Era perto de uma
hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que se
iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a
cogitar em ir armado, considerando que, se nada houvesse, nada perdia, e a
precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa, vexado de si mesmo, e seguia,
picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi.
Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
— Quanto
antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim...
Mas o
mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não
tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da rua da Guarda Velha, o
tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra.
Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos,
reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante,
a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das
cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas
e pejadas de curiosos do incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente
Destino.
Camilo
reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande,
extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns fantasmas de
outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe
voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que
esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo:
era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com
vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no
cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros
concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda!
agora! empurra! vá! vá!
Daí a
pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras
cousas; mas a voz do marido sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta:
"Vem já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa
olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de
um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A
voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a mesma frase do
príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na
terra do que sonha a filosofia..." Que perdia ele, se...?
Deu por
si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou
pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o
corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não
aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade
fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas,
três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia
consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior
que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma
janela, que dava para os telhados do fundo. Velhos trastes, paredes sombrias,
um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.
A
cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as
costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no
rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e
enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de
rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana,
morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a
mesa, e disse-lhe:
— Vejamos
primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...
Camilo,
maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer
saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não...
— A mim e
a ela, explicou vivamente ele.
A
cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as
cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as
bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a estendê-las.
Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As
cartas dizem-me...
Camilo
inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não
tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro,
ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela; ferviam invejas e
despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava
deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A
senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da
mesa e apertando a da cartomante.
Esta
levantou-se, rindo.
— Vá,
disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé,
com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão
da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a
qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las
e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa
mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair,
não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas
custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar
buscar?
— Pergunte
ao seu coração, respondeu ela.
Camilo
tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O
preço usual era dois mil-réis.
— Vejo
bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá,
vá tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A
cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando,
com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que
levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava acima,
cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava
livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe
parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava
límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris;
recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e
familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram
urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e
gravíssimo.
— Vamos,
vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E
consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que
formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga
assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da
cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a
existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se
ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do
rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro.
Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas,
as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e
no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os
elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade
é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e
nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu
os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve
assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a
pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e
entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve
tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
—
Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela
não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para
uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao
fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela pegou-o pela
gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.
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